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O céu estava estrelado, como já há tempos não se via. Ele não entendia o porquê dela ter ido embora, não entendia o porquê de seus olhos não mais se encontrarem, ou porque de o timbre de suas respectivas vozes já não serem assim, tão harmônicos. Ele não entendia principalmente, o porquê de mesmo com todas essas perguntas sem resposta, ele não estava se sentindo preocupado, ou impelido a persegui-la.
Será que era mesmo certo não ir atrás do amor de sua vida, será que ele deveria simplesmente ficar lá, sentado, e ver a vida passar?
Provavelmente daqui um bom tempo, quando aquele velho sentimento de nostalgia da crise de meia idade nos invade a mente, e somos surpreendidos por uma voz que grita em nossos ouvidos “você não fez nada de bom!” ele teria as respostas, mas daí já seria tarde demais.
Afinal de contas, o que era relacionar-se?Ele, no auge de seus vinte anos não fazia a mínima idéia, ou melhor, achava que sabia, até um dia acordar e ver ao seu lado uma completa estranha para qual ele dedicou seu tempo, suas energias, seus agrados e uma espécie de química humana que os românticos (como ele um dia fora) chamavam de ‘amor’
Ah, o amor.
As quatro letras mais lindas, e mais perigosas de todo o mundo.
E o que ganhara em troca? Dor de cabeça, desilusão, sofrimento e o que mais? Era isso? E todo aquele belo final feliz que a mídia nos vende, era simplesmente fantasia?
Será que relacionar-se seria aquilo? Uma espécie de jogo onde você aposta alto todo dia e corre o risco de perder tudo de uma hora pra outra, não, não devia ser.
Não podia ser.
Olhou para o horizonte, onde minutos antes o carro dela havia sumido, deixando para trás apenas poeira e promessas não cumpridas.
Não, não era um jogo, não eram apostas, não era acorrentar-se, era apenas ignorância, era apenas um paraíso visto através de um fosco.
O amor era o berço de toda a humanidade, ele era o senhor do tempo, o portador da paz e da guerra, era o vento, era o dia e a noite, era essência, o amor era o inicio e o fim.
O amor não era apenas uma química, era a química mais perfeita que um dia já existiu, era simplesmente magia.
Então ele entendeu não se tratavam de jogos nem de correntes.
O amor era a mais pura arte que duas almas podem produzir, não era possuir, era construir, não era controlar, era partilhar, era a união dessas duas almas.
Aquilo soava romântico demais.
Talvez fosse, de fato, romântico demais.
Mas que mal havia? No fim do dia, não sofremos todos de fome de amor?
Ele não tinha as respostas para as perguntas que se fizera sobre ela, mas compreendeu que era unicamente porque não era sobre ela que ele deveria questionar-se."